Festival LED: ouvir educadores para repensar os caminhos da educação brasileira
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Profissionais de educação trocam experiências e refletem sobre como tornar a prática pedagógica mais instigante e próxima dos estudantes
Como espaço de reflexão sobre os desafios presentes e futuros da aprendizagem no Brasil, a 5ª edição do Festival LED reuniu professores, estudantes e pessoas interessadas em educação. Entre oficinas, palestras e trocas de experiências, educadores de diferentes áreas e realidades compartilharam práticas e estratégias para aproximar o ensino do cotidiano dos estudantes. O evento aconteceu nos dias 15 e 16 de maio, no Píer Mauá, região portuária do Rio de Janeiro.
Iniciativa da Globo e da Fundação Roberto Marinho, com apoio da Editora Globo, a 5ª edição do Festival LED contou com patrocínio da Fundação Bradesco e parceria estratégica do SEBRAE. O Movimento LED Globo - Luz na Educação mapeia, ilumina e reconhece práticas que estão transformando vidas através da educação.
Para a educadora Maria Bernadete Rufino, não existe prática pedagógica sem considerar as múltiplas realidades presentes em sala de aula. Integrante da formulação da Educação de Jovens e Adultos (EJA), antes conhecido como ensino regular noturno, ela construiu sua trajetória na área de inclusão educacional da Fundação Roberto Marinho, atuando em projetos em diferentes regiões do país. Entre as experiências que mais marcaram sua trajetória, Bernadete destaca o trabalho realizado em Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. “Lá encontrei muitas pessoas que deixavam suas casas para conseguir estudar na cidade e, muitas vezes, viviam em condições precárias de alojamento. A educação não chega até essas pessoas e, mesmo quando elas tentam ir ao encontro dela, ainda enfrentam muitos desafios.”
A realidade descrita por Bernadete não está restrita somente ao território de Cavalcante. No Brasil, mais de 40% de brasileiros com 25 anos ou mais não concluíram a educação básica, segundo dados da Pnad Contínua 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Existe um desejo muito forte de crescer, de ampliar horizontes e construir novas possibilidades de vida. Mas essas pessoas ainda esbarram na dificuldade de acessar uma educação de qualidade, que realmente considere suas realidades e necessidades”, afirma Bernadete.
A professora acompanhou painéis dedicados à EJA e a iniciativas voltadas para pessoas jovens, adultas e idosas que estão fora da escola sem concluir a educação básica. Entre elas está o SEJA, curso preparatório digital e gratuito oferecido pela Fundação Roberto Marinho. A plataforma auxilia estudantes na preparação para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), possibilitando a obtenção do diploma do ensino fundamental e/ou médio.
Moradora da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, Dominga Moreira é uma das pessoas que tiveram a trajetória transformada pela educação. Ainda durante o ensino básico, precisou interromper os estudos, mas conseguiu retomar a formação por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Depois de concluir a educação básica, continuou estudando e hoje atua como professora na comunidade onde cresceu, o território quilombola Kalunga.
Ao longo desse percurso, uma das pessoas que marcaram sua trajetória foi a educadora Maria Bernadete Rufino. Segundo Dominga, o desejo de estudar sempre esteve ligado à vontade de contribuir com a própria comunidade. “O papel do professor é fortalecer o saber e ajudar a abrir caminhos. Os professores mostram que é possível seguir em frente e fazem o aluno entender que ele importa”, ressalta. Ela foi uma das convidadas da mesa “Juventudes em Movimento — Engajamento, Permanência e Sentido da Escola para os Projetos de Vida”, programação do Palco Dialoga.

Pablo Pinhar, professor de educação ambiental, levou seus alunos da Escola Municipal GET Pedro Ernesto, na Lagoa, para conhecer o Festival LED. O educador conta que suas aulas unem a prática em sala de aula a experiências de campo realizadas dentro da própria escola, por meio da horta cultivada com a participação dos estudantes. “Em um mundo em que as mudanças climáticas e a sustentabilidade estão cada vez mais em pauta, a educação sobre esses temas deve começar ainda na infância”, destaca.
Segundo Pablo, sua motivação para promover uma educação que ultrapasse os limites da sala de aula vem da própria infância, quando não teve acesso a esse tipo de experiência durante sua formação escolar. Para o professor, levar os alunos ao Festival LED também é uma forma de mostrar às crianças que aprender pode ser algo prazeroso e divertido. No evento, espaços como o Ledinho e diferentes estandes foram pensados especialmente para o público infantil, reunindo brincadeiras e dinâmicas educativas.
Mais diálogo na educação
Da Educação de Jovens e Adultos (EJA) ao ensino superior, passando por diferentes formas de ensinar e aprender, o palco LED Dialoga reuniu, nos dois dias de evento, debates sobre os desafios e possibilidades da educação contemporânea.
Mediador da mesa “Ensinar a perguntar: curiosidade, arte e criatividade como método de aprendizagem”, o professor da rede pública do Espírito Santo, Matheus Corassa, destacou que não existe aprendizagem sem engajamento dos estudantes. Ao lado de Evelyn Bastos, rainha de bateria da Estação Primeira de Mangueira, Diana Kolker, coordenadora de educação e arte do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, e Carolina Sanches, autora e consultora em leitura e edutainment, os participantes defenderam a educação como uma experiência coletiva e criativa.

Matheus Corassa também destacou que pensar o futuro da educação passa por escutar os territórios e, também, os estudantes. “É pensar no que o aluno quer aprender, é construir a sala de aula junto com ele. O professor, mais do que mediador, precisa ser um inspirador”, afirma.
A percepção dialoga com dados do Relatório Nacional da Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas, publicado em 2025, segundo o qual 40% dos estudantes desejam ter mais aulas práticas na rotina escolar. No palco LED Dialoga, debates sobre maneiras de fazer a educação circular dentro e fora da sala de aula marcaram a programação do evento.
O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRRJ), Luciano Olivieri frequenta o Festival LED desde a sua primeira edição no Rio. “É um encontro que traz a educação e as questões sociais ricas, porque inspira, ensina e deixa a gente sempre atento”. A troca entre professores e entusiastas pela educação é o que motiva o professor a sempre querer participar do evento. “Os desafios dos estudantes chegam, e os professores devem estar preparados para lidar com isso”, completa.
