Notícia: Por uma infância com menos telas e mais movimento: os benefícios do esporte para crianças

Por uma infância com menos telas e mais movimento: os benefícios do esporte para crianças

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Esportes para crianças podem ajudar a combater o sedentarismo, uso excessivo de telas e isolamento social. Saiba como o SESI-SP democratiza o acesso ao esporte infantil
 

Você já reparou como é cada vez mais raro ver crianças brincando na rua? As calçadas que uma geração atrás eram palco de pega-pega, pique-esconde, futebol e queimada estão vazias. Hoje, crianças e adolescentes estão nos quartos e nos sofás com o celular na mão e o corpo parado. Muitas vezes, têm mais facilidade em rolar a tela do que arremessar uma bola. 

O movimento ficou para depois. E esse "depois" tem um custo alto. Sedentarismo, sobrepeso e isolamento social compõem um retrato preocupante da saúde infantojuvenil no Brasil. Os dados confirmam o que pais e educadores já percebem no dia a dia.

Qual a relação entre telas e sedentarismo na infância?

Um menino usando um celular deitado em uma cama

Crianças e adolescentes têm acesso à internet cada vez mais cedo e por períodos cada vez mais longos. Cerca de 95% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos usam a internet, de acordo com a pesquisa TIC KIDs Online Brasil 2023 (Cetic.br/NIC.br).  O primeiro acesso acontece antes do tempo recomendado: 24% relataram ter acessado à internet antes dos 6 anos

A Organização Mundial de Saúde (OMS) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomendam limites de tempo de telas por faixa etária:

  • nenhuma até os 2 anos de idade
  • máximo de 1 hora por dia para crianças de 2 a 5 anos
  • máximo de 2 horas por dia para crianças de 6 a 10 anos

No entanto, 6 em cada 10 crianças brasileiras de até 6 anos já ultrapassam esse limite. Por outro lado, a atividade física cai na mesma proporção: apenas 28% dos estudantes de 13 a 17 anos são fisicamente ativos, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019, do IBGE. Em dez anos, esse percentual caiu pela metade.

6 em cada 10 crianças ultrapassam o limite
de 2h por dia nas telas

As consequências já podem ser vistas. O comportamento sedentário, frequentemente associado ao uso excessivo de telas, é apontado pelo Ministério da Saúde como um dos principais fatores de risco para hipertensão, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares já na infância.

No mundo, a população entre 5 e 19 anos com obesidade aumentou dez vezes na última década. Se nada mudar, a estimativa é que essa marca chegue a 254 milhões de crianças e adolescentes em 2030 e o Brasil pode ocupar o 5º lugar nesse ranking, segundo alerta da própria SBP.

César Cavinato Cal Abad, coordenador de Desenvolvimento do Esporte do SESI-SP, explica o que acontece no organismo de uma criança exposta por horas devido ao uso excessivo de telas.

"A tela estimula sempre as mesmas áreas cerebrais (as do sistema de recompensas) e pode ir modificando o cérebro da criança", afirma.

César Cavinato Cal Abad, Coordenador de Desenvolvimento do Esporte do SESI-SP.
César Cavinato Cal Abad, Coordenador de Desenvolvimento do Esporte do SESI-SP

"A criança tem uma sensação de tristeza ou angústia quando a tela não está disponível. A longo prazo, pode gerar um vício e uma dependência difícil de se desfazer na vida adulta." , completa Prof. Cavinato.

Há ainda os impactos físicos: encurtamentos musculares e problemas posturais que, cronicamente, aconteceriam somente em idades bem mais avançadas.

Por que os 6 aos 12 anos são a janela importante para o esporte infantil?

crianças brincando

Antes, com mais acesso a ruas e espaços públicos de lazer, as crianças aprendiam naturalmente, a correr, saltar, pular e se equilibrar. Brincando com os colegas, sem precisar de instrução. Hoje, em muitos casos, essas habilidades precisam ser estimuladas. E o momento para isso não é infinito.

"Nosso desenvolvimento como ser humano é sequencial. Dos 6 aos 12 anos é o melhor momento em que o corpo está preparado para aprender movimentos e desenvolver repertório motor", explica César. "Isso não significa que uma pessoa de 20 anos não possa aprender um novo esporte. Ela vai aprender tudo, mas o seu máximo de aprendizagem não vai ser igual ao de alguém que começou aos 6 anos."

A explicação é neurológica. Quando uma criança aprende um movimento novo, acessa áreas mais superficiais do cérebro. Ao repetir, consolida esse aprendizado em regiões mais profundas, tornando o movimento mais automático e duradouro. 

A prática esportiva estimula mecanismos cerebrais ligados à aprendizagem, à memória e à cognição e favorece a produção de substâncias relacionadas à plasticidade cerebral, diretamente associada ao desenvolvimento intelectual e à capacidade de aprendizado.

"É o mesmo efeito de dirigir: quanto mais você faz, mais automático fica.", ilustra César. 

Uma criança alfabetizada do ponto de vista motor nas idades certas carrega essa base para o resto da vida.

Esportes para crianças: o que a tela não consegue ensinar

Não é novidade que o esporte tem inúmeros benefícios para a saúde física: melhora cardiovascular, neurológica e bem-estar mental. Mas o esporte oferece algo que vai além do corpo e que a tela não consegue “ensinar”: o encontro com a realidade do outro e com os próprios limites.

"Hoje, as crianças são superestimuladas pelas telas a ter somente sentimentos positivos. Mas você não vai fazer dez arremessos no basquete e acertar os dez", diz. 

"O esporte nos faz olhar para nós mesmos, ver a nossa realidade, lidar com a frustração e identificar quais habilidades podemos melhorar. Percebemos que podemos ajudar as pessoas e aprender com elas também.", defende o especialista.

Na tela, a criança só vê o que quer ver e só interage com quem aceita. No esporte, isso não acontece. E é justamente aí que estão alguns dos aprendizados mais importantes: colaboração, empatia, resiliência e a capacidade de perder.

César também aponta que o esporte reduz sintomas de ansiedade e depressão, melhora a autoestima e fortalece habilidades sociais.

"Não privamos as crianças da frustração, mas ensinamos a lidar com ela. Valorizamos muito mais o caminho do que o resultado em si. Quanto melhor o caminho, maiores as chances de sucesso.", reforça César.

Como o SESI Esporte democratiza o acesso à prática esportiva

A insegurança nos grandes centros urbanos e a pouca oferta de áreas públicas de lazer tornam o acesso ao esporte restrito para muitas famílias. O Programa SESI Esporte nasceu para  democratizar esse acesso.

O programa oferece 29 modalidades olímpicas e paralímpicas de forma totalmente gratuita para crianças e jovens de 6 a 15 anos, sem critério de seleção por habilidade ou condição social. Basta um atestado médico e interesse em participar. 

Só no estado de São Paulo, são 52 unidades com modalidades que vão do atletismo ao goalball, passando por basquete, futebol feminino, judô, natação, skate, vôlei, ginástica artística e muitos outros.

O programa também funciona como porta de entrada para trajetórias profissionais. A triatleta Luísa Baptista, por exemplo, desde cedo, conciliou natação, ciclismo e corrida no SESI-SP e aprendeu que evolução vem da disciplina e da resiliência.

Hoje, como orientadora de Esporte do SESI-SP, ela carrega esse aprendizado para dentro do trabalho e o transmite aos novos atletas.

"Diante de qualquer adversidade, eu penso como se estivesse em uma prova: não adianta entrar em pânico. Você respira, mantém o foco, respeita o processo e segue em frente, um passo de cada vez. O esporte me ensinou resiliência, responsabilidade, trabalho em equipe e, principalmente, confiança de que dificuldades passam, mas o aprendizado fica.", ressalta Luísa

Luísa Baptista, atleta de triathlon e orientadora de Esporte do SESI-SP
Luísa Baptista, atleta de triathlon e orientadora de Esporte do SESI-SP

Esporte com foco em brincar, não competir

A metodologia do SESI-SP evita a especialização precoce. Nas idades iniciais, o foco está no desenvolvimento global, ou seja, movimentos básicos que progridem em complexidade e despertam o prazer pela prática. A criança experimenta diferentes modalidades antes de se aprofundar naquela com que mais se identifica.

Quem se destaca pode avançar para equipes de aperfeiçoamento e desempenho e, eventualmente, participar de campeonatos nacionais e internacionais. 

 "O esporte é um meio de desenvolvimento e há pluralidade para a pessoa decidir o que fazer.", resume César.

Um ponto que César lamenta é o imaginário coletivo que associa esporte à performance e à cobrança de alto rendimento. Para ele, esse é o maior motivo de desistência dos alunos. 

"A cobrança exacerbada de pais e treinadores é o principal motivo pelo qual crianças abandonam o esporte", diz. 

Por isso, o programa trabalha com as famílias no intuito de ensinar os pais a torcerem e estimularem os filhos de forma positiva. 

“O desempenho por si só é muito perverso. O esporte não é um fim nele mesmo, de ganhar a qualquer custo. O mais importante é desenvolver habilidades sociais, coletivas e individuais.”

Como participar do Programa SESI Esporte

Qualquer pessoa pode participar do Programa SESI Esporte, basta apresentar um atestado médico indicando aptidão. 

Quem pode participar: crianças e jovens de 6 a 15 anos
Inscrições: gratuitas
Onde se inscrever: Centro de Atividade (CAT) mais próximo
Lista completa de unidades: aqui

O Prof Cavinato reforça que o acesso à prática esportiva, ao lazer e ao acesso são direitos previstos no Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).

“A escassez de oferta pode e deve ser suprida por uma cobrança social: as pessoas precisam se apropriar dos seus direitos e fazer isso ser justo. O esporte é uma mola propulsora do bem.", defende o coordenador de Desenvolvimento do Esporte do SESI-SP.

Perguntas frequentes sobre telas, sedentarismo e esporte infantil

O uso excessivo de telas causa sedentarismo em crianças?

Sim. Cada hora adicional de tela está associada à redução do tempo dedicado à atividade física. Além do comportamento sedentário em si, o uso prolongado de dispositivos digitais estimula o sistema de recompensas do cérebro, gerando dependência e reduzindo a motivação para atividades físicas. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) aponta o uso excessivo de telas como um dos principais fatores que contribuem para o sedentarismo infantil e o aumento da obesidade na infância.

Quanto tempo de tela por dia é recomendado para crianças?

A OMS e a SBP recomendam: nenhuma tela até os 2 anos; máximo de 1 hora por dia para crianças de 2 a 5 anos; e máximo de 2 horas por dia para crianças de 6 a 10 anos. Para adolescentes, o limite é de 2 a 3 horas diárias, excluindo o tempo com atividades escolares. Na prática, 6 em cada 10 crianças brasileiras de até 6 anos já ultrapassam esse limite.

A partir de que idade a criança pode começar a praticar esportes?

A partir dos 6 anos, as crianças entram na janela mais importante para o desenvolvimento motor e cognitivo. É nessa fase que o cérebro está mais preparado para aprender movimentos e consolidá-los em regiões mais profundas, tornando as habilidades automáticas e duradouras. O SESI Esporte aceita crianças a partir dos 6 anos, sem nenhum critério de habilidade prévia.

Quais são os benefícios do esporte para crianças além da saúde física?

O esporte desenvolve habilidades socioemocionais que a tela não consegue oferecer: colaboração, empatia, resiliência, autoestima e capacidade de lidar com a frustração. Reduz sintomas de ansiedade e depressão, fortalece vínculos sociais e ensina a criança a olhar para seus próprios limites e potenciais. Esses aprendizados acompanham o indivíduo ao longo de toda a vida.

O SESI Esporte é gratuito? Como funciona?

Sim. O SESI Esporte é totalmente gratuito e aberto a crianças e jovens de 6 a 15 anos, independentemente de vínculo com a indústria ou nível de habilidade. O programa oferece 29 modalidades olímpicas e paralímpicas em 36 unidades no estado de São Paulo. Para participar, basta apresentar um atestado médico e procurar o Centro de Atividade (CAT) mais próximo. A lista de unidades está disponível em sesisp.org.br/unidades.

Como o esporte pode ajudar a reduzir o tempo de tela das crianças?

O esporte ocupa o tempo que seria destinado às telas e oferece estímulos que os dispositivos digitais não conseguem reproduzir: interação presencial, movimento, desafios físicos e convivência com regras e pessoas diferentes. Quando bem conduzida, a prática esportiva também aumenta a motivação intrínseca da criança; ela passa a querer se movimentar, reduzindo naturalmente a dependência das telas.