Notícia: Robótica educacional: muito além de montar robôs

Robótica educacional: muito além de montar robôs

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No SESI-SP, a robótica faz parte do currículo desde o 1º ano do Ensino Fundamental. Projetos criados por alunos ajudam a solucionar problemas reais e são premiados em competições internacionais

Robótica SESI
Foto: Karim Kahn/SESI SP

Manuela da Silva, de 15 anos, e seus colegas da Escola SESI de Osvaldo Cruz, encontram uma solução para um problema que arqueólogos enfrentam há décadas: a lentidão do processo de escavação manual. Os estudantes criaram uma peneira automática capaz de otimizar em mais de 30% o tempo das expedições.

A inovação foi apresentada pelos alunos, que formaram a equipe Eagles, na última edição do FIRST LEGO League (FLL) Challenge, um dos maiores torneios de robótica do mundo.  O projeto conquistou o 2º lugar no Prêmio Sesi de Inovação FLL "Niède Guidon", nome dado em homenagem à arqueóloga fundadora do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí.

Já os estudantes da Escola SESI de Boituva desenvolveram uma placa para proteger escavações arqueológicas durante as pausas nas atividades. O projeto conquistou o 2º lugar em Inovação na FIRST Lego League e uma vaga para o Open da Califórnia.

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Equipe Mega Snakes, da Escola SESI de Boituva, classificadas para o Open da Califórnia. Foto: Everton Amaro/Fiesp/Sesi

Esses resultados não são isolados. Na modalidade FLL, o SESI-SP é tricampeão mundial do World Festival, com a conquista do Champion’s Award, principal título da categoria, nos anos de 2018, 2024 e 2025.

Só neste ano, as equipes do SESI-SP conquistaram 21 prêmios no Festival SESI de Robótica, um recorde para instituição, e nove prêmios técnicos no Torneio Sesi de Robótica FIRST Robotics Competition (FRC). Além disso, garantiram quatro vagas para o Campeonato Mundial de Robótica da FIRST, em Houston, nos Estados Unidos, e mais duas classificações para o Open da Califórnia.

A equipe Stardust, da Escola SESI e SENAI Limeira, que compete na modalidade FIRST Robotics Competition (FRC), celebra um marco inédito ao garantir, pela primeira vez, a classificação para a competição internacional. Para os integrantes, a conquista vai além do resultado na arena e simboliza a realização de um sonho coletivo construído ao longo dos anos. “Essa vaga para o Mundial representa tudo. Representa a minha vida, porque me dedico muito na Stardust e na Robótica, que é tudo para mim. O Mundial sempre foi o nosso objetivo desde o princípio”, destacou o estudante Enzo Magosso Picin.

Além do desempenho técnico, a equipe também se destaca pelo impacto social de suas iniciativas. Um dos principais projetos é o Starbox, um kit de peças com encaixe de pressão, desenvolvido pelos próprios alunos para estimular o aprendizado prático de conceitos STEAM. Voltado inicialmente a estudantes do 4º e 5º ano, o material permite montagens livres, incentivando a criatividade e o “aprender fazendo”, com possibilidade de expansão para conteúdos mais avançados, como programação e transmissão de movimentos. “Criamos o Starbox para levar a robótica de maneira acessível a todos”, explicou Heloiza Manias Claudino, ressaltando que a iniciativa surgiu a partir da identificação de desafios enfrentados por escolas da região na implementação do ensino de tecnologia.

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Equipe Stardust, da Escola SESI e SENAI Limeira, conquista vaga para torneio mundial de robótica. Foto: Camila Carvalho/SENAI-SP

Mas muito além das premiações, para os mais de 100 mil estudantes da rede SESI-SP, a robótica cumpre um papel fundamental: resolver problemas reais e desenvolver uma série de competências que eles vão levar para a vida inteira.

O que é robótica educacional e por que vai além do código?

Quando se fala sobre robótica na escola, é comum imaginar peças de Lego e códigos na tela do computador. Mas a proposta da robótica educacional vai bem além disso.

Para Caio de Godoy Camargo, supervisor técnico educacional do SESI-SP, o objetivo central nunca foi ensinar os estudantes a construir robôs. "Nosso enfoque não estava restrito à construção de robôs, mas ao desenvolvimento da criatividade, da capacidade de resolução de problemas e de outras habilidades fundamentais.", explica.

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Estudantes no Festival SESI de Robótica que aconteceu em março de 2026, no Parque Ibirapuera, em São Paulo (SP). Foto: Everton Amaro/Fiesp/SESI

Desde 2007, a robótica educacional integra o currículo do SESI-SP a partir do primeiro ano do Ensino Fundamental. Em 2018, a instituição passou a desenvolver conteúdo próprio para as aulas de robótica. Hoje, o material didático vai do 1º ao 9º ano, abordando criatividade, solução de problemas, trabalho em grupo e a relação entre tecnologia e o mundo industrial. No Ensino Médio, um componente curricular específico de robótica está sendo pilotado.

Projetos de robótica e o desenvolvimento de competências para a vida

O tema de cada temporada da competição da  FIRST  exige que os estudantes se movam para buscar soluções para problemas existentes na comunidade.

Na edição de 2025/2026, o desafio da FIRST  girou em torno da arqueologia. As equipes tiveram que pesquisar, conversar com especialistas, buscar parcerias com empresas e, em alguns casos, registrar propriedade intelectual. "Muito além do que um estudante faria na educação regular.", resume Caio.

Robótica SESI
Para Caio Camargo, supervisor técnico educacional do SESI-SP, a robótica educacional ensina diferentes competências que vão além da programação.

Para ele, a robótica educacional só faz sentido quando está a serviço do desenvolvimento humano. Trabalho em equipe, gestão de projetos, empatia e pensamento crítico não são ensinados apesar da robótica, são ensinados por meio dela.

"Robótica é muito mais do que robôs", reforça Caio.

Essa formação deixa marcas duradouras. Uma ex-aluna que participou de uma equipe de torneio procurou Caio anos depois, já na faculdade, para contar que os projetos complexos que deixavam os colegas desesperados não a assustavam. "Na robótica fiz tantos trabalhos complexos que hoje é fácil", disse ela.

Os torneios também têm projeção internacional e isso cria um efeito colateral poderoso: os estudantes passam a estudar inglês por conta própria ou em parceria com instituições.

Dessa percepção nasceu o projeto "Saberes da Robótica", que vai além da tecnologia e aborda organização para estudos (como o de uma língua estrangeira, por exemplo), gestão de projetos e preparação para o ambiente acadêmico e profissional.

Robótica acessível: como escolas públicas podem começar

Um dos maiores equívocos sobre robótica educacional é acreditar que ela exige laboratórios caros e equipamentos de última geração. Para Caio, essa percepção precisa mudar.

O SESI-SP mantém um programa chamado Remaker, voltado justamente para a robótica de baixo custo. Com componentes eletrônicos simples e materiais de uso cotidiano (caixas, palitos, garrafas PET) é possível construir mecanismos funcionais, trabalhar lógica de programação e desenvolver competências socioemocionais.

O programa também inclui parcerias com prefeituras e busca aproximar as redes públicas desse universo. São Paulo é o único estado do Brasil com um torneio de robótica FIRST Lego League exclusivo para escolas públicas. As equipes também emprestam materiais e oferecem formação para escolas públicas interessadas em participar das competições.

Conhecimento para vida toda: universidades, exterior e trajetórias transformadas

Os resultados da robótica educacional são para a vida inteira. Centenas de ex-alunos do SESI ingressaram em universidades públicas brasileiras como USP, Unesp e Unicamp, que reservam vagas para estudantes premiados em olimpíadas científicas. Muitos outros estão em instituições no exterior.

É o caso de Ana Clara Cavalcante, ex-aluna do SESI Jundiaí - Jardim Tarumã. Após conquistar prêmios em torneios nacionais e mundiais de robótica, ela hoje cursa Engenharia na Universidade da Califórnia, Berkeley, uma das melhores universidades públicas dos Estados Unidos.

"A robótica foi um divisor de águas na minha vida. Foi por meio dela que aprendi a acreditar em mim mesma, me tornei protagonista do meu próprio aprendizado e me apaixonei pela engenharia pela ideia de criar soluções que impactam pessoas. Meus mentores acreditavam genuinamente no meu potencial, e isso me deu a autoconfiança que hoje é essencial tanto no mercado de trabalho quanto para estudar fora do país.", ressalta Ana Clara.

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Ana Clara Cavalcante, ex-aluna do SESI Jundiaí - Jardim Tarumã, hoje estuda Engenharia em Berkeley, uma das melhores universidades públicas dos EUA. Foto: Everton Amaro/FIESP

Para Caio, o que une todas essas histórias é algo mais profundo do que prêmios ou diplomas.

“A robótica transforma vidas. Resgata estudantes que estavam à margem do processo educacional e os reconecta à aprendizagem. Democratizar esse acesso, alcançando cada vez mais pessoas, é o compromisso que nos move diariamente.”

O futuro da robótica educacional: humanos e máquinas juntos

A robótica não para de evoluir e o SESI-SP acompanha esse movimento de perto. A rede está implementando robôs humanoides de última geração no Centro de Inovação Educacional SESI-SP, para que os estudantes tenham contato com o que há de mais moderno na área.

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Primeiro robô humanoide integrado a uma rede escolar de educação básica, apresentado na etapa nacional do Festival SESI de Robótica em 2026. Foto: Everton Amaro

As equipes que representam o SESI-SP no Campeonato Mundial de Robótica da FIRST carregam muito mais do que troféus. Elas mostram ao Brasil o que a tecnologia na escola, aliada a uma proposta pedagógica sólida, pode alcançar e até onde um estudante pode chegar quando alguém acredita no seu potencial.

Como participar de uma competição de robótica

Para escolas, professores e estudantes interessados em participar, um ponto de partida é conhecer as modalidades organizadas pela FIRST no Brasil.

A Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR) também é uma ótima porta de entrada. Algumas modalidades são gratuitas, o que permite a participação de escolas privadas e públicas.

A competição tem etapas práticas (torneios) e teóricas. Equipes do SESI-SP já participaram de edições nacionais e do Mundial da RoboCup, conquistando diferentes títulos e premiações.

As equipes do SESI-SP  também apoiam escolas públicas com empréstimo de material e formação, um caminho concreto para quem quer dar os primeiros passos na robótica educacional.

Acompanhe os resultados das competições e saiba mais sobre as vagas conquistadas:

👉 Festival Sesi de Robótica — 21 prêmios e vagas internacionais
👉 Torneio FIRST Robotics Competition — 9 prêmios técnicos e mais vagas ao mundial

A robótica educacional estimula a capacidade de criar, colaborar e persistir diante de um problema, habilidades que vão muito além de códigos e que nenhuma máquina substitui. O próximo passo é garantir que cada vez mais estudantes tenham acesso à esse aprendizado que é capaz de transformar vidas.