“Educação inclusiva é para todos e cada um, sem distinção”
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O pesquisador espanhol Eladio Sebastián-Heredero e outros especialistas se reuniram no 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI, em Fortaleza, para debater o planejamento acessível e o cuidado com quem educa

Mais de 600 pessoas participaram presencialmente do 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI, que aconteceu nos dias 30 e 31 de julho de 2026, em Fortaleza (CE), com transmissão online gratuita pelo YouTube.
O encontro é uma realização do Departamento Nacional do SESI em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e o Conselho Nacional do SESI, e reuniu educadores, gestores e pesquisadores dos 27 departamentos regionais, além de convidados internacionais.
Com o tema “Inclusão em movimento: práticas e acessibilidade”, a programação teve como objetivos fortalecer a política institucional de educação inclusiva da Rede SESI, promover atualização técnica e científica sobre práticas inclusivas, disseminar experiências dos regionais e aproximar educação, saúde, inovação, atendimento educacional especializado e acessibilidade.
Sem a intenção de entregar respostas prontas ou apenas discutir conceitos, os dois dias giraram em torno de perguntas incômodas: o que muda quando o professor planeja para a diversidade antes de adaptar para um aluno? Como responder a um crescimento exponencial de diagnósticos? E quem cuida de quem passa o dia cuidando?
“O seminário reafirma o compromisso do SESI com a construção de ambientes educacionais acessíveis, acolhedores e inclusivos”, destacou Fausto Augusto Júnior, presidente do Conselho Nacional do SESI, na abertura. Ele lembrou que a instituição completou 80 anos em 2026 e que a origem do SESI, em 1946, já era uma missão de inclusão.

Educação inclusiva é a mesma coisa que educação especial?
Foi a primeira ideia que o professor espanhol Eladio Sebastián-Heredero, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, quis desfazer na palestra magna. Para ele, a educação especial responde por uma parte pequena do que se chama de diversidade na sala de aula.
O restante são estudantes que não aprendem por motivos que ninguém mapeou. O luto por um animal de estimação, a fome, um conflito com os colegas, um dia ruim que ninguém percebeu.
Educação inclusiva é para todos e cada um dos estudantes que temos em sala de aula. Todos e cada um, sem distinção nenhuma, porque todos somos diferentes.
Eladio Sebastián-Heredero

A mesma tese apareceu na fala de Fausto Augusto Júnior, que cobrou coerência do próprio setor.
“A inclusão não acontece só na rampa que a gente constrói nos nossos espaços. Por mais que a gente construa uma rampa na nossa escola, se não tiver uma rampa na rua para o cadeirante passar, a dificuldade continua.”
Ele citou ainda a Lei 15.468/2026, sancionada em 13 de julho, que incluiu educação política e direitos da cidadania como componente curricular obrigatório da educação básica.
Os números do Censo Escolar, do Inep, ajudam a dimensionar o desafio. As matrículas da educação especial chegaram a 2,5 milhões em 2025, alta de 82% em relação a 2021, e 93,5% dos estudantes de 4 a 17 anos desse público estão em classes comuns. Mas o Atendimento Educacional Especializado alcança apenas 49,7% deles e só 11,3% dos gestores escolares fizeram formação continuada na área.
Os estudantes chegaram. O suporte, nem sempre.
Como planejar uma aula que funcione para a turma inteira?
A resposta que Eladio trouxe atende pelo nome de Desenho Universal para a Aprendizagem, ou DUA, e nasceu fora da escola.
Na arquitetura, a rampa foi pensada para o cadeirante. Só que passou a servir a quem empurra carrinho de bebê, carrega caixas ou se machucou. A solução para um acabou beneficiando muitos, e foi essa lógica que pesquisadores norte-americanos levaram para a sala de aula.

Na prática, o DUA organiza o planejamento em três princípios: motivação e engajamento, representação do conteúdo por mais de um caminho e ação e expressão, que é permitir ao estudante mostrar o que aprendeu do jeito que consegue. Eladio traduziu as diretrizes para o português, em publicação da Revista Brasileira de Educação Especial, e integra o grupo que trabalha na versão mais recente.
“O objetivo não é adaptar, é planejar. Planejar para não ter que adaptar.”
O pesquisador antecipou a reação mais comum, a de que isso daria trabalho a mais. Segundo ele, a maioria das escolas já faz isso, só que tarde. Quando o aluno não aprendeu, o professor oferece outro texto, um vídeo, pede que um colega explique com outras palavras. A diferença está em colocar essas alternativas no ponto de partida.
E não é preciso ter um estudante cego ou surdo na turma para começar. “A gente tem que antecipar a possibilidade
e existência desse tipo de estudantes”, disse, comparando com o arquiteto que constrói a rampa sem saber quem vai usá-la.
Ainda assim, fez questão de não vender a solução mágica: “Não é o remédio infalível. É uma estratégia que serve para planejar de forma diferente e antecipar possíveis dificuldades.”
Por que cresce o número de estudantes com autismo nas escolas?
A mesa-redonda “Autismo em perspectiva”, mediada por Kátia Marangon, gerente de Formação em Educação do Departamento Nacional do SESI, colocou o neuropediatra André Cabral ao lado de Eladio.

Cabral abriu com o dado do CDC, órgão de saúde pública norte-americano: a prevalência do transtorno do espectro autista entre crianças de 8 anos passou de 1 em 150, em 2000, para 1 em cada 31 no levantamento divulgado em 2025, referente a dados de 2022.
Entre as explicações, listou critérios diagnósticos mais amplos, mais conscientização, diagnósticos tardios em adultos e substituição diagnóstica.
Mas o ponto central da fala interessa sobretudo a quem faz gestão escolar. O crescimento dos diagnósticos é exponencial. As soluções, quase sempre, são lineares.
“Toda vez que alguém propuser uma solução para questões relacionadas ao transtorno do espectro do autismo, você precisa perguntar: essa solução cresce de forma exponencial?”, provocou. “O espaço entre a curva que cresce de forma exponencial e as soluções que crescem de forma linear é o número de famílias desassistidas.”
Planejamento coletivo ou plano individual para cada estudante?
A pergunta atravessou a mesa, e os dois especialistas responderam que não são caminhos opostos.
Cabral explicou o Plano Educacional Individualizado (PEI) com uma imagem de ilhas. A turma inteira precisa atravessar do segundo para o terceiro ano, e alargar o cais para todos embarcarem é adaptação. Só que alguns estudantes nem estão naquele cais.
“Você pode aumentar o porto do tamanho que for, mas ele não vai conseguir ir se não tiver um barquinho pequeno, preparado para ele. E ele vai seguir avançando.”
Eladio ponderou que, quanto melhor o planejamento coletivo, menor a necessidade de adaptações individuais depois. E cobrou das escolas algo anterior à metodologia, que é a organização.
“Por que todas as salas de aula têm que ter 30 alunos? Onde está escrito isso?”, questionou Eladio.
O neuropediatra levantou ainda um problema estrutural pouco discutido, a falta de comunicação entre escola e saúde. “A escola não recebe um relatório, ela recebe um laudo. E se a gente não compartilha, fica só supondo o que acontece do outro lado.”
O que o esporte paralímpico ensina sobre inclusão na escola?
Em conversa com o superintendente de Educação do SESI Nacional, Wisley Pereira, o diretor de Desenvolvimento Esportivo do Comitê Paralímpico Brasileiro, Ramon Pereira de Souza, contou como o CPB deixou de olhar apenas para o alto rendimento a partir de 2017.

Hoje são 110 centros de referência paralímpica no país, com cerca de 11,5 mil crianças e adolescentes atendidos, um deles em Maranguape (CE). O Brasil terminou os Jogos Paralímpicos de Paris 2024 em quinto lugar no quadro de medalhas, a melhor colocação de sua história.
Para Ramon, porém, o indicador que importa é outro. “A maior medalha é o agradecimento do pai e da mãe com respeito à evolução do filho.”
Ele apontou um gargalo que começa na escola regular. Por falta de formação dos professores de educação física, muitos estudantes com deficiência simplesmente são dispensados das aulas. Wisley reconheceu o problema:
“A palavra é essa, dói, mas é chocante: excluindo aquele estudante porque o professor não foi formado.”
Quem cuida de quem educa?

O encerramento coube ao neurocientista e pedagogo Fernando Lauria, fundador do Instituto Límbios de Neurociência e Educação, com a palestra “Cuidar para inspirar: a importância de acolher quem educa”. Esta é a quarta edição do seminário e a quarta de que ele participa.
Lauria começou desmontando uma frase corriqueira nas salas de professores. “Nossa, eu tenho na minha sala 25 alunos e dois alunos de inclusão. Não. Eu tenho 27 alunos.”
Para ele, a mudança não começa na técnica. “A inclusão não começa com a prática. A inclusão começa com a mudança do olhar.”
E defendeu que cuidar do educador não é detalhe de bem-estar, e sim condição de funcionamento do sistema. “Nós não aprendemos a nos regular em ambientes que estejam desregulados.” A cadeia que descreveu é circular: a liderança cuida da equipe, a equipe cuida dos educadores, os educadores cuidam dos estudantes e a comunidade cuida da escola.
“Cuidar de si não é abandonar responsabilidades, é sobretudo não se abandonar”, disse, antes de fechar com a ideia que ficou do evento: “Os nossos meninos podem até esquecer uma parte daquilo que ouviram, mas vão carregar por muito tempo a maneira como foram vistos.”
O que o SESI entregou e para onde vai o seminário

O momento simbólico do primeiro dia foi a entrega do Documento Orientador: Educação Inclusiva nas Escolas da Rede SESI, elaborado pelo Departamento Nacional com contribuição de sete regionais. Iniciada em 2023, a publicação ganhou nesta atualização capítulos sobre povos originários e relações étnico-raciais, e será disponibilizada em e-book. O Departamento Nacional investiu mais de R$ 30 milhões neste ano em projetos de inclusão nas escolas da rede.
Já o segundo dia, no SESI Barra do Ceará, foi dedicado a dez oficinas conduzidas por professores da própria rede, selecionados por edital nacional. Os temas iam de arte inclusiva e aprendizagem cooperativa a autorregulação emocional de educadores e construção de jogos por estudantes com altas habilidades e TEA.

No balanço final, Wisley Pereira deixou o recado que virou resumo do encontro: "A inclusão é sem vírgula, desde o nosso porteiro a quem tiver o maior cargo possível."
👉 A próxima edição do Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI acontece em 2027, no Rio de Janeiro. Para não perder as inscrições, acompanhe os canais do SESI Nacional e reveja as palestras desta edição no 1º dia e no 2º dia.
Perguntas frequentes
O que é o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA)?
É um conjunto de diretrizes para planejar aulas acessíveis a todos os estudantes desde o início, organizado em três princípios: motivação e engajamento, representação do conteúdo e ação e expressão.
Qual a diferença entre o DUA e o Plano Educacional Individualizado?
O DUA é uma abordagem universalista, pensada para a turma inteira. O PEI é uma resposta individual, prevista em legislação, para o estudante que o planejamento coletivo não alcança. No seminário, os especialistas defenderam que são complementares.
Quando e onde aconteceu o 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI?
Nos dias 30 e 31 de julho de 2026, em Fortaleza (CE), com transmissão on-line gratuita. A próxima edição será no Rio de Janeiro, em 2027.
Quantos estudantes da educação especial estão em classes comuns no Brasil?
Segundo o Censo Escolar 2025, do Inep, 93,5% dos estudantes de 4 a 17 anos desse público. Em 2011, o percentual era de 74%.
